Cemfreio encerra o primeiro dia da Casa de Criadores com coleção simples e desconstruída – #fort

“A ideia de representatividade do negro segue como nossa principal mensagem, mas se na primeira coleção as roupas protegiam o corpo, agora elas o revelam”, explica Victor Apolinário, sobre a segunda apresentação da Cemfreio, na Casa de Criadores. Mas engana-se quem pensa que só a silhueta mudou – no caso, de ampla para próxima ao corpo, com direito a fendas, decotes e recortes. Na real, todo (ou quase, vai) o processo de confecção também foi alterado.

texto: Luigi Torres
fotos de backstage: Cassia Tabatini / FORT Magazine
fotos passarela: Marcelo Soubhia/FOTOSITE

Bastidores do desfile da Cem Freio - verão 2018 || Créditos: Cassia Tabatini

Bastidores do desfile da Cem Freio – verão 2018 || Créditos: Cassia Tabatini

Antes havia uma ambição – por vezes até exagerada – em construir e elaborar modelagens de clássicos do streetwear. Um moletom não era nunca só um moletom, uma jaqueta jeans não era só uma jaqueta jeans. Tudo tinha algo a mais, algo a acrescentar. Desta vez, a ordem é reduzir. “Se você olhar bem, vai ver que as bases são bastante comuns – são camisetas, camisas, alfaiataria, que fomos cortando, desconstruindo e alterando”, diz Victor. Mas no que a roupa perde de tecidos, ela ganha em ideias e significados

Desde que lançou sua Cemfreio, o estilista e artista multimídia se tornou um dos principais expoentes de resistência e representatividade na moda brasileira. São assuntos que colocam o modo como indivíduos se representam em primeiro lugar e daí a importância da roupa nessa história. Acontece que roupa também camufla. Roupa esconde, confunde, muitas vezes por questão de sobrevivência mesmo. É um tipo diferente de armadura. Mas, num momento em que se impor (e se expor) como realmente é se torna urgente, revelar o que te faz você (e ser humano) é essencial. Vem em parte daí a necessidade de corpo nesta coleção. A camada externa por si só não dá conta, é preciso mostrar e estar conectado ao que vem por baixo, à pele. Por mais que carregue códigos essenciais de sua vivência e ancestralidade (a exemplo das referências aos rituais de capoeira e candomblé da infância de Victor), a roupa não tem significado e não representa ninguém sozinha.

Em apenas duas temporadas, Victor provou que visão e criatividade não faltam. Pelo contrário. Hoje, ambos são qualidades cada vez mais desejadas e exigidas pelo consumidor – mas, na passarela, acabaram abafadas por momentos de falta de acabamento. Uma lição marcante desses 20 anos de Casa de Criadores é que criação não se sustenta sem produto de qualidade e discurso de verdade. E já que a parte do discurso não é problema, falta só tirar um pouco o pé do acelerador e se focar mais na execução. Aí sim a Cemfreio ficará, de fato, sem freio. Ninguém segura!

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