Perfil da Casa! Gustavo de Carvalho e a força das águas do Xingu e de Iemanjá na Casa de Criadores

“Faço figurinos para cantores, filmes e curta metragens, desenvolvo instalações e performances, esculturas, grafito, pinto, bordo”: esse é Gustavo de Carvalho, que mergulhou na águas claras do Xingu e de Iemanjá para criar sua coleção que será apresentada em formato de vídeo no dia 12 de maio, sexta-feira, na 41ª edição da Casa de Criadores. De olho na entrevista abaixo!

Casa de Criadores – Conte um pouco sobre sua marca, o processo de criação e onde ela vende atualmente?

Gustavo de Carvalho – “Falar da minha marca é um processo de desconstrução, pois busco nela indagar os meus questionamentos como indivíduo e assim buscar meu lugar na sociedade como artista. Comecei a fazer minhas primeiras peças no ano de 2008, quando comecei a faculdade de modelagem. De lá até aqui algumas coisas foram determinantes para entender o meu processo: tudo que faço ou desfilo até hoje foi desenhado, costurado, modelado, beneficiado, performatizado pelas minhas próprias mãos. O processo de produção artesanal do meu trabalho está muito conectada ao desdobramento de que minha roupa traz à minha vivência, a minha história, do que eu já passei das dificuldades e das vitórias. Vejo, compreendo e respiro moda como linguagem de arte, experimentação sensorial de cunho antropológico que indaga caminhos e possibilidades para o processo criativo. Dentro do meu trabalho na moda, além das coleções, encontrei outras formas de me comunicar e expressar meus talentos: faço figurinos para cantores, filmes e curta metragens, desenvolvo instalações e performances, esculturas, grafito, pinto, bordo… Realmente a moda é muito importante para mim. Acredito que ela vai até além, acredito no poder de transformação social, no poder de ressignificação que ela possui. A moda fala da história de cada um de nós, nossas roupas comunicam nossa alma, nossa verdade. Não reproduzo grandes grades das minhas peças, tenho clientes que buscam desde a roupa do desfile até uma peça conceitual para uma performance, um filme, uma instalação. Em relação às peças dos desfiles vendo as diretamente ao cliente final, pelo e-mail, Whats App, Instagram ou busco algum local de vendas, sempre pontos não fixos que mudam e transitam ocupando a cidade. Os clientes mais fixos já me procuram em casa ou em cafés para passar um croqui, uma ideia. Gosto muito de desenvolver coisas únicas e exclusivas.” 

Casa de Criadores – Conte um pouco sobre sua coleção para esta edição da Casa de Criadores e quem são as pessoas envolvidas nela.

Gustavo de Carvalho –  “Xingu é uma coleção que comecei a desenvolver em 2015. Eu tinha ido assistir a um filme pelo preço de 1 real no Centro Cultural Vergueiro. Me questiono muito como algumas coisas são erradas no nosso país, e um ponto que me incomoda particularmente é como o acesso à cultura é extremamente elitista. Em SP ainda é possível ter mais coisas rolando gratuitamente, mas eu sou do Rio de Janeiro e lá as coisas não são muito bem assim. Dentro do filme teve essa cena com a música ‘Xingu’ da banda brasileira NoPorn e ali eu tive esse insight que me jogou quando eu era adolescente e tinha tido o primeiro contato com a música deles. Saí do filme sabendo que queria mergulhar nessa sensação e que ali queria construir um desfile X coleção amarrando esse sentimento. Comecei a estudar a palavra Xingu e descobri que em tupi guarani essa palavra significaria água limpa, água boa. Como essa coleção é um trabalho que comecei em 2015, diferentes pontos ao longo dos últimos messes me influenciaram diretamente. Ali no mesmo período da primeira pesquisa rolou o desastre de Mariana e esse foi o maior desastre ambiental desse gênero nos últimos 100 anos em todo o mundo (e o que até agora foi feito no Brasil com a negligencia da empresa Samarco?). Aqui é quando as coisas ficam bem interessantes: Xingu era cultuado pelos índios como um Deus, um Deus de água boa. Os índios são nossos ancestrais, eram eles que estavam nessa terra antes dos portugueses chegarem e roubarem tudo. Eles eram ritualistas e vivem em ritos e manifestações. No Rio de Janeiro existe um forte culto à força do mar, no Réveillon diversas pessoas entregam oferendas, pequenos gestos de agradecimentos e votos com pedidos de prosperidades para esse ano que se inicia para a rainha do mar, Iemanjá. Tanto Xingu como Iemanjá são referências para um recorte na sociedade em diferentes tempos históricos, porém mesmo transcendendo os séculos, diferentes grupos manifestam sua religiosidade para uma mesma força natural, a água. Em Mariana, o que destruiu a cidade foi uma onda enorme de lama, a lama é uma “água suja”, uma “água impura”. Xingu / Iemanjá são forças que representam a limpeza, o translúcido, a clareza. Metaforicamente e antropofagicamente entramos aqui em uma dualidade: o bem X o mal.”

“É complicado pensar no mundo que estamos atualmente vivendo, é complexo e não tenho certeza que alguém encarnado nesse exato momento tenha a clareza para explicar essa transição do mundo. O tempo nunca passou tão rápido, ao mesmo tempo em que precisamos cada vez mais questionar o tempo que dedicamos para cada coisa. Quando passamos um tempo maior criando uma coleção, percebemos a necessidade que tem coisas que tem um tempo próprio para serem ditas. Quando cai na luta do bem contra o mal na minha pesquisa, não tive como não pensar na igreja e na bíblia, e no apocalipse. Não tenho como não ler que existe um grupo religioso muito forte ( Estado Islâmico) matando e oprimindo em nome de um Deus. Vivemos um momento de grande intolerância a tudo, e não só a religião. No Brasil temos nossos políticos que a cada dia que passa nos chocam mais e mais. Seriam essas pessoas humanas? O que de fato cada um de nós sabe do mundo e do universo ao nosso redor? Xingu é isso. É um processo antropofágico de cunho político, que surge no meio do caos que vivemos no mundo de hoje. Precisamos buscar cada vez mais a simplicidade e a verdade nos nossos corações. Por isso esse desfile não é apresentado em uma plataforma física. O desfile foi gravado em 2016 apenas visto e presenciado pela própria equipe que produziu. Como os primeiros grupos de performances dos Estados Unidos que se reuniam e se fechavam para produzir arte performativa, mas que o expectador só tinha acesso àquela experiência quando o vídeo fosse mostrado. Por que a necessidade de tudo aqui e tudo agora?”

“Essa obra está diretamente conectada aos artistas que a produzem comigo, pois como os índios que viviam em grupo e se manifestavam com seus iguais, trabalhei com parceiros e profissionais que estão conectados com a minha vida em diferentes recortes temporais. Para a criação do curta metragem, Henrique Smith mergulhou nos textos sobre cinema tridimensional de Murilo Salles. Na beleza, Joana Wérica questiona a relação do corpo X maquiagem, propondo uma beleza que vai transmutando e ocupando o corpo ao longo da evolução do desfile. A trilha produzida por Felipe Rosa e Henrique Turcatto é uma imersão sensorial desconstrutiva inspirada na poesia concreta do NoPorn. A performance do ator Luiz Felipe Lucas traz vida às esculturas em referências a orixás, forças da natureza, riqueza  da fauna e flora brasileira. O desfile é um mix evolutivo que é aberto pela atriz Vaneza Oliveira (Joana – 3% – Netflix), seguido pela minha garota Heloisa Muniz e o incrível Kim Olivier. Modelos presentes no meu trabalho em diferentes momentos, que se encontram nesse recorte atemporal assim como as tribos indígenas em suas manifestações ritualísticas vibrando e pedindo por boas energias, por água limpa nesse tempo de lama.”

Casa de Criadores – O evento comemora 20 anos em 2017. Na sua opinião, qual o motivo de tanto sucesso e como a Casa de Criadores tem ajudado sua marca a crescer e se tornar mais atuante no mercado?

Gustavo de Carvalho – “Acho que pensar os 20 anos de Casa de Criadores é também pensar a história da moda no Brasil. Me lembro na faculdade de ler e estudar sobre o evento, dos estilistas que passaram e eram os principais protagonistas do cenário nacional. Muita gente boa passou pelo evento e acho que ele foi se costurando e se transformando inúmeras e inúmeras vezes. Isso é muito importante quando buscamos pensar e questionar a razão de se fazer uma semana de moda, a razão de propor ao expectador um recorte, uma linguagem. O meu primeiro desfile no evento foi pelo Projeto Lab no segundo semestre de 2013, mas a primeira vez que tentei entrar no evento foi em 2012 no Fashion Mob que rolou no Vale do Anhangabaú. Faz 5 anos do meu primeiro contato com a Casa até o desfile do dia 12, e nesse período acredito que o que mais o evento me possibilitou foi permitir acreditar em mim mesmo. Acreditar nas minhas ideias, nas minhas indagações, que posso sim trazer na minha moda um trabalho que seja autoral, que posso questionar que posso experimentar e até errar. O processo criativo é constante e o evento me possibilitou encontrar meu próprio tempo. Eu fiz 3 desfiles contando com a estreia em 2013 e pude nesse primeiro contato entender de fato o que esse trabalho em desenvolver moda significa para mim como individuo: eu não estou apenas apresentando um trabalho para vender, estou apresentando um trabalho pois tenho algo para dizer. Eu de fato jamais irei desfilar novamente como Gustavo Carvalho na Casa de Criadores ou em qualquer outra passarela de qualquer lugar do mundo, pois foi dentro do evento que pude como artista fechar uma persona e me reinventar em outra. Hoje como Gustavo DE Carvalho, agradeço a Casa de Criadores e ao André Hidalgo de respeitarem o meu tempo e acreditarem na minha arte.”

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Croqui da nova coleção do estilista

Casa de Criadores – Quais as dicas que você dá para quem está pensando em criar uma marca de moda?

Gustavo de Carvalho – “Tem muita coisa rolando nesse primeiro momento de pensar fazer uma marca e se me encontro em alguma posição para sugerir algo. Acredito que é sempre interessante questionar o real motivo de querer iniciar qualquer coisa na vida. Precisamos nos atentar pois tudo que colocamos no mundo fará uma ressonância. Vivemos na moda hoje uma crise moral muito eminente. Mão de obra escrava e infantil, estruturas de trabalho abusivas, marcas que se apropriam de discursos e lutas apenas para se promover em desfiles… Realmente precisamos entender o que queremos fazer o que queremos por e quais as formas de construir essas falas, essas linguagens. E o mais importante nessa linha de raciocínio é chegar nessa jornada de descobrir a sua verdade. Pois não existe nada mais satisfatório do que você fazer e por aquilo que você acredita. Seja a diferença que você quer ver no mundo.”

Casa de Criadores – Você vende pelas redes sociais?

Gustavo de Carvalho – “Eu costumo trabalhar bastante assim com a minha moda. Demorou um tempo para entender que talvez os caminhos mais tradicionais de contato com o cliente não fosse muito o meu timing, pois não gosto muito de fazer grandes reproduções das minhas peças e existe esse processo muito de artesão no meu trabalho. Gosto de saber e conhecer quem está comprando ou desenvolvendo algo comigo e percebo que essa é uma tendência bem forte em diversos lugares do mundo. Está se mudando bastante nos últimos anos a forma de consumir moda.”

Casa de Criadores – Sobre a imagem de sua marca, como você pensa nela e como explica essa imagem?

Gustavo de Carvalho – “A imagem da minha marca é um processo em constante construção, diretamente ligado aos meus sentimentos, a minha vivência. É uma obra X vida. Busco me questionar como individuo e como artista a fim de evidenciar discursos e possibilidades. Enaltecer minha cultura, minha raiz, minha periferia. Sempre gostei muito de arte, sempre gostei dos artistas brasileiros e tem um que é tão importante para mim e tão importante para a nossa cultura, o Hélio Oiticica com sua ANTI arte, seu ‘seja herói seja marginal’ me leva muito a querer abraçar minha moda como minha expressão de linguagem artística, como minha obra de estudo, algo que irá continuar, irá ficar, irá ser além da minha vida corpórea. Eu não estou mais criando para mim, eu estou criando para a História. Eu quero que a minha moda seja lembrada anos e anos após a minha morte.”

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O estilista Gustavo de Carvalho || Créditos: Arquivo pessoal

 Instagram:  @gustavo.carvalho

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