PARA OS SENSÍVEIS DE PLANTÃO, QUANDO A MODA ACEITA A MELANCOLIA

Por Luigi Torre

Não sou o maior fã da Chanel de hoje em dia. Acho os desfiles um tanto repetitivos, tradicionais demais, conservadores demais. Mas precisamos falar sobre este mais recente, o de inverno 2018. Esse que teve uma floresta de folhas secas e árvores mortas — sim, elas estavam mortas! — cobrindo boa parte do salão principal do Grand Palais, em Paris. Com seus casacos de tweed alongados, completamente abotoados, e saias no tornozelo; com seus vestidos de tricôs pesados e toda aquela cartela de cores escuras, a melancolia era inevitável. E isso merece muita atenção.

Não é meu lado negativona nem meu pessimismo falando mais alto. É o mundo. Pensa comigo: na última década, a moda veio num crescendo violento, com as mídias e redes sociais pisando fundo no acelerador. Explosão de posts, chuva de memes, surra de influencers e tsunami de selfies. Desde o 11/9 e da crise financeira de 2007 e 2008, não se via tanta ironia na moda. Naqueles períodos, todo mundo estava na pior, o clima de incerteza pairava sobre o mundo todo, então quem tinha tempo para gracinhas no Instagram? Nem o próprio Instagram tinha tempo para ele mesmo (o app foi lançado em outubro de 2010).

Foram anos difíceis para as marcas, ninguém estava muito a fim de gastar. Só que as coisas melhoraram (melhoraram?). E todo mundo se permitiu dar umas risadas e esquecer dos problemas e das causas deles. Na verdade, era até desejável ignorar eles. Bem pão e circo mesmo. Imagem em primeiro lugar, conteúdo para quê? E realidade para depois. Karl Lagerfeld, aliás, soube explorar isso muitíssimo bem na Chanel. É só lembrar em todos os acessórios mais improváveis, tipo a bolsa cesta de supermercado, os acessórios luminosos e por aí vai.

Corta para 2016, 2017 e para agora: deu ruim de novo! Tiro, porrada e bomba! Só que a moda — e boa parte do mundo — demorou um tantinho de tempo para se ligar. Olhe para as últimas temporadas de desfiles e a palavra otimismo aparece entre as principais tendências. Nada contra os otimistas, até acho importante esse raiozinho de sol de vez em quando. Mas a realidade sempre chega com o pé na porta. Uma dessas portas foi a de Harvey Weistein e vários outros homens. Outra portas foram as de algumas democracias e direitos de minorias conquistados (ou quase) arduamente. O inverno 2018 da Chanel pode ser visto como a resposta a essa visita indesejada da realidade.

Um closet florido e cheio de cores não vai mudar o mundo nem o que você vê na rua quando sai de casa. Talvez você não ligue para nada disso, mas talvez ligue. E se ligar, há grandes chances que isso te incomode muito. E você não vai querer se montar todo dia (talvez só aos fins de semana ou naquela festa babadeira, aquela resistência de fervo necessária). Vai querer o conforto de uma camiseta preta, de um tricô pesado ou até de um casacão meio gótico. Vai preferir se apagar mais do que brilhar, vai preferir o conforto da roupa de ficar em casa ou daquela que te lembre isso. E não vai estar muito a fim de palhaçadinhas non-sense, de mensagem subliminares ou entre linhas. Vai preferir o silêncio. E nada expresse um cala-boca melhor do que um look preto.

Se aceitar as tristezas, pesar as dificuldades e abraçar a melancolia é parte essencial de vida, por que a moda deveria fazer diferente?

P.S.: Gente, eu estou bem, tá? É só um comentário sobre a moda.

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