Liberdades e libertinagens na marca Hotel California T-Shirts do figurinista David Parizotti

Leia na minha camisa… ou melhor, nas camisetas da Hotel California T-shirts, do figurista David Parizotti. “A ideia surgiu há uns 15 anos quando, por paixão a desenhos vintages, grafismos, cartazes antigos, cards de viagens, posteres de cinema, pop icons, capas de discos e flyers da noite, etc, veio o desejo de ter essas artes em estamparias, trabalhadas de uma maneira old school, com aquela cara de camisetas velhinhas, antigas”, conta.

Viva a vintage
“Dai veio um estudo de como trabalhar imagens assim em photoshop para que, ao gravar em telas de silk screan, elas já nascessem com cara de usadas. Testes de contrastes, saturação e cores feitos, fomos para a estamparia, onde a técnica necessária também fosse de uma ‘mão leve ‘ de camadas de tintas e de impressão, para que tudo ficasse mais leve, mais diluído. Na época eu garimpava t-shirts lisas e de modelagem interessante em brechós diversos, pois obviamente as camisetas tinham que acompanhar o conceito podrinho das estampas, e serem também já usadas, gastas, pra que tudo se encaixasse e tivesse a verdade de uma peça já com vida”, continua David.

Bom, de lá pra cá, a cada temporada, o figurinista conta que segue fazendo novas pesquisas visuais, tratando imagens, novas telas e pequenos bazares onde vende para amigos, ou em sets de filmagem, “onde minha atuação como figurinista também facilitava esse contato”. Ah, a Juicy By Licquor vende a a marca, além de brechós de locação de figurino como o Spazio Vintage.

Encontre seu ativismo
“Muitos anos depois, sem estampar, após um diagnostico positivo para o HIV, e um turbilhão de mudanças drásticas em meu dia a dia, forma de viver e praticas, mergulhei de cabeça em novas paixões, entre elas o ativismo em relação à minha condição de sorologia positiva. Veio então uma necessidade urgente de ter mais uma voz criativa que contemplasse esse momento de ativismo politico, social, cultural, de identidade de gêneros e condições que estamos vivendo e que eu, particularmente vivo diariamente”, segue o figurinista, que trouxe de volta sua marca.

Dedo nas feridas
“A ideia é ser um dedo nas chagas da sociedade preconceituosa e hipócrita, trazer no peito questões e temas que deviam ser cotidianos, mas que aos olhos de muitos que nos veem vestindo as camisetas soam como afrontas, como agressão, são consideradas pesadas.”

“Não diria que fetiche é o tema único da marca, e sim Manifesto, Resistência, tudo que se quer ser e viver, ao que se é. Sim, há fetiche, porque isso, como outras liberdades e libertinagens, são as chagas escondidas da sociedade. Queremos não só lembrar que existem pra todos, queremos também tocar, masturbar esse preconceito, esse puritanismo, essa caretice, que faz com que virem a cara as estampas de orgulho gay, de sexo, de mulheres livres, de gotas de porra, de bundas e paus, quando as notam nas ruas.”

De onde vem tanta referência?
“Curadorias de ilustrações, posteres, cartazes, insta-arts, fotos de viagens, grafites em muros do mundo, flyers de casas de sexo, sex shops, festas gays, pesquisas de temas que tratem de sexualidade, nudez, fetiches, cultura queer, HIV, tesão, fodas são hoje em dia o olhar da marca. Somado a isso trechos de poesias, frases de libertação, palavras que ganham forte significado quando somadas a imagens. E também veio a necessidade de criar a peça em si, a pesquisa têxtil, todos os testes até chegarmos nessa modelagem one size lose fit, que é exatamente pra atender a corpos, tamanhos e gêneros diversos, onde todos possam usar uma peça que não é masculina, não é feminina, é uma peça de roupa, agenero…”

2019 chegou
“Nessa nova fase da marca, abri o insta pra ter mais voz criativa, notoriedade e poder, com amigos e clientes, fotografar as tees, conceitualizar as ideias, parafrasear as estampas nas fotos e abrir o universos das hashtags pra ter um contato coletivo maior com ‘os nossos!” As vendas, portanto, são de maneira informal, por pedidos direct no insta, amigos que pedem ou vão até seu acervo-atelier, onde montou um mini showroom da marca.

Olimpo de referências
Movimentos e artistas que povoam o inconsciente “no que tange as emoções e como as exteriorizar, e consciente quanto as escolhas visuais que representem o que quero berrar. Tem Helmut Newton, Robert Mapplethorpe, Doris Kloster e sua relação com o fetiche com o pb, com a inversão de papeis, com o nu escancarado em formas e tamanhos, com os gêneros. E Andy Warhol, Basquiat, Keith Hering em relação à critica social e ao consumo, american way, e o ir contra, ainda que sendo pop, mas o pop de altos contrastes, saturado, que usa e abusa de imagens já existentes e lhes da novo significado. Pierre et Gilles, David Lachapelle e Matthew Barney, que são deuses da criação de seres, mitos, imagens, mundos, híbridos, possibilidades de existir, de realidades reais/paralelas… Tom of Finland, eterno! E todos os que vieram junto com ele ou seguem vindo após seu legado. O Movimento Queer Voguing Ball, e tudo que ele traz de informação de moda, atitude e ativismo desde os 70. Alem de fotos de cards gays em geral, postes de paradas gays pelo mundo, fotos e desenhos pop icons, grafites e fotos minhas, de minhas viagens e até meu corpo. Afinal, se arregaço minha alma em tudo que faço, qual problema em mostrar meu rabo ou pau numa foto-estampa-manifesto?!”

Mais sobre David Parizotti
“Comecei no cinema como assistente de produção, alguns anos depois, por influência de um importante relacionamento com um estilista, meus olhares criativos se abriram pro mundo da moda, e após um ano morando em Londres, aos 23 anos, ao voltar, transpus esse olhar para o figurino, em 1998. De lá pra cá, como produtor de figurino, fiz publicidades, longa metragens, programas de TV, até que iniciei a faculdade de moda na Universidade de Belas Artes, onde fui aluno da primeira turma do curso, e buscava com isso uma lapidação agora acadêmica, para que além da informação, a formação me desse segurança pra alçar voos mais altos assinando trabalhos. Comecei a assinar minhas obras em 2001, e de lá pra cá sigo em cinema, longa metragens, series e publicidade. Anos depois abri o Acervo Roupa De Santo, que há oito anos atende a produtores e figurinistas que lá produzem figurinos contemporâneos, vintages, realismo fantástico e tudo mais que meus anos de trabalho, viagens e investimentos, permitiram acumular e criar”, completa David, que também cursou artes cênicas e não mede palavras nem atitudes.

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