Thiago Pethit fala em entrevista sobre sua tragédia de Orfeu com o disco “Mal dos Trópicos”

Por Ali Prando

Depois de um hiato de 5 anos, Thiago Pethit faz seu retorno à cena musical com “Mal dos Trópicos (Queda e Ascensão de Orfeu da Consolação”, disco feito em parceria com nomes como o talentosíssimo Diogo Strauzs, Maria Beraldo (que tem o melhor show em circulação pelo Brasil, desde o ano passado), e a musa noturna Liana Padilha que assina o duo NoPorn, entre outros.

De ambientação ambiciosa, “Mal dos Trópicos – Queda e Ascensão de Orfeu da Consolação” tem referências centradas em trip-hop, música noir e o movimento pós-tropicalista – se em seu disco anterior, Pethit assumia uma persona que beirava um Deus do Rock, agora ele parece ter em suas composições e vocais todo o peso das dores e paixões humanas, encarnando a persona de um Orfeu gay, apaixonado e sinfônico.

Orfeu é um dos mitos mais poderosos da história da filosofia e da arte. Era um músico talentoso, que cantava canções de carnaval. Ele então perde seu amor, Eurídice, e por isso decide confrontar Hades, Deus do Inferno, que concorda em trazer sua amada de volta à vida contanto que Orfeu apenas olhe para trás quando enxergasse a luz do sol. Orfeu não consegue cumprir o pacto, e perde Eurídice para sempre. Quando Orfeu volta, não consegue mais cantar as canções que animam os ritos dionisíacos – o que resta é luto, tristeza e desesperança. As bacantes, então, em cólera, devoram Orfeu. Talvez o que Pethit esteja fazendo por agora funcione como uma resposta estética aos tempos de conservadorismo político brasileiro que estamos vivendo e que ainda se agravarão nos próximos anos – Hades e Orfeu devem ter as respostas.

Thiago Pethit / Foto: Divulgação

Em entrevista à Casa de Criadores, Pethit comenta sobre a função do artista no contemporâneo, a parceria com Diogo Strauzs e como é ser artista independente no Brasil:

Casa de Criadores – Ser artista independente envolve um trabalho gigantesco, porque além da confecção artística, você também precisa explorar aspectos de business e burocracia. O que significa ser artista indie no Brasil em 2019?

Thiago Pethit: Eu gosto de ter o controle absoluto da minha carreira. Embora isso signifique me desdobrar em quinhentas funções diferentes e burocracias que nada tem a ver com ser artista, eu me sinto mais realizado com essa responsa na minha mão. Demorei para aprender isso e aceitar. Mas hoje em dia, eu gosto! Sobretudo no que envolve comunicação e produção, eu prefiro que as coisas sejam pensadas e feitas do meu jeito. Sem truque, sem maquiagem de showbizz. Mas é triste também ser artista independente num país com tão pouco mercado cultural. O retorno é muito inferior ao que nos propomos, tanto em termos de visibilidade – oportunidades, espaços para tocar e desenvolver nossas carreiras – quanto financeiramente. Ser artista independente envolve muito muito muito muito trabalho e muitos pesadelos sobre o dia de pagamento dos boletos.

CdC – Você é sempre minucioso ao escolher seus produtores e colaboradores, e com “Mal dos Trópicos” não foi diferente. Como foi o processo criativo desenvolvido com Diogo Strausz?

TP: O Diogo é um dos parceiros mais sensíveis que já tive. Não o conhecia pessoalmente quando começamos a nos encontrar e falar desse disco. Foi a primeira vez que pude marcar uns cinco cafés-reuniões e conhecer o produtor, explanar as ideias, entender se tínhamos sintonia e tudo isso. Sabe, é sempre meio estranho começar um disco. Você passou um tempão fazendo essas músicas sozinho e de repente já começa mostrando elas pra alguém que vai botar a mão e mexer e revirar. Alguém com quem você não tem ainda muita intimidade. Com Diogo não foi diferente, mas me senti muito confiante. Ele tem uma generosidade ímpar!

O fato de ser mais novo também fez toda diferença. Foi a primeira vez que pude desenvolver um disco com um artista da minha geração e com idades e experiências aproximadas. Foi mais de igual pra igual, sabe? Sinto que tem muito dos dois em cada opção que foi feita e ao mesmo tempo, pela primeira vez tenho um disco que considero irretocável. Onde não precisei abrir mão de nenhum desejo ou “falar mais alto” para alcançar algo.

Thiago Pethit / Foto: Divulgação

CdC – Mal dos Trópicos possui uma persona inspirada no mito de Orfeu. Como essa persona dialoga com o Brasil contemporâneo?

TP: Acredito que existam muitas narrativas possíveis dentro de “Mal dos Trópicos”. Pode ser um disco sobre amor e destruição e solidão, um disco pessoal. Pode ser uma fábula mais ampla sobre o mito grego do cantor que perde seu amor raptado pelo Deus do submundo e que já foi relido muitas vezes por outros artistas, alguns brasileiros, como Vinícius e Luis Bonfá. Pra mim, ele tem tudo isso e ainda essa relação com o luto, e a metáfora da perda.

De 2016 pra cá, quando comecei a pensar esse álbum, nós tivemos muitas perdas enquanto civilização e sociedade. De um ponto de vista pessoal, “o artista Thiago Pethit” era um Orfeu do Carnaval em 2014. Eu não estava, como agora, falando de samba e brasilidades, mas tinha um componente Dionisíaco naquele discurso: libertário, libidinoso, disruptivo e celebratório dos avanços das minorias naqueles últimos anos. Há muita coisa em jogo em 2019, entre elas essas conquistas – que estavam longe de serem suficientes e nunca foram, mas haviam avançado bastante. Orfeu é um reflexo disso. Desse Brasil que perdeu muito de sua anima. E é também um convite a olhar pra esse luto, não como quem deita pra isso e aceita derrotas. Mas como quem precisa se reorganizar e encontrar novas saídas a partir da dor. A dor pode ser um componente poderoso para mudanças.

CdC – O movimento LGBT+ nos Estados Unidos começou com policiais agredindo essas pessoas, e isso ficou conhecido como o Movimento de Stonewall. No Brasil, durante a pós-ditadura, a polícia era autorizada e influenciada a exterminar travestis, no que ficou conhecida como Operação Tarântula. Nesse ano, a política institucional brasileira tem votado uma lei que torna homolesbotransfobia crime. Nesse contexto histórico-político, qual é o papel e a função do artista LGBT?

TP: Os artistas LGBT alcançaram pela primeira vez nos últimos anos espaços que vão entrar para a história. Há 10 anos, quando estreei e era isoladamente o único gay da minha geração, não podia sonhar diante daquele cenário machista da música que haveriam tantos e tantas protagonistas potentes como os que temos agora. Acredito muito nesse avanço. Mas acredito também que nada é eterno, que nenhuma luta está ganha. O mundo não está pensado para as minorias – o tempo todo querem tentar barrar as pretas, as trans e os gays de avançarmos e garantirmos espaços dignos de co-existência. Eu diria que o papel do artista LGBT é de atenção e resistência e de não acomodação com o que o mercado tem a oferecer, pois o mercado muda de acordo com seus próprios interesses. É de fato, preciso estar atento e forte.

Thiago Pethit / Foto: Divulgação

CdC – A gramática-inspiratória desse disco perpassa pelo Teatro Oficina de Zé Celso, antropofagia, os sussurros de Madonna na fase “Erotica”, NoPorn, Teto Preto, Gorillaz, o enlutamento pós-Tropicalista de Gal Costa em seu “Fa-tal – A Todo Vapor”, as festas de rua de São Paulo, mas o que gostaríamos realmente de saber é que amores, ou melhor, que rasgos afetivos tornaram esse disco possível, com essa sonoridade noir e essa poética?

TP: Todos os rasgos, eu poderia dizer. Não existe paixão que não seja violenta. As pessoas e os afetos nos atravessam, invadem corpos e intimidades, invadem o dia a dia, as crenças, invadem tudo. E quando digo violento não é no sentido literal, agressivo ou de machucar-nos. Mas há um rasgo para cada relação afetiva que criamos e um rasgo para todas as que não pudemos criar.

Talvez porque no grande sentido da existência nós sejamos sós, sempre. Do corte do cordão umbilical à nossa morte, é tudo uma grande trajetória solitária. Existem encontros e atravessamentos. Nós somos sós, sempre. E quanto menos privilegiados mais sós.

Então acredito que esse lado noir surgiu muito destas ideias. Como é viver, amar, ser artista, trocar em tempos tão escuros e complexos como esses?

CdC – O que você gostaria que as pessoas soubessem sobre você que elas ainda não sabem?

TP: Eu gostaria que as pessoas me conhecessem. Eu mesmo, cada vez mais.

Ouça “Mal dos Trópicos (Queda e Ascensão de Orfeu)”

Compartilhe: