Luanna Jimenes: “A performance não pretende transmitir entendimentos mas experiências”

Foi pensando em caminhar pelas entrelinhas da performance que entrevistamos a atriz, dançarina e performer Luanna Jimenes. Entender e também aniquilar preconceitos em torno desta arte que cresce a passos largos no Brasil, mas que ainda encontra resistência por parte inclusive de artistas e pessoas que se ligam em artes em geral. “A performance não se define até que o artista se arrisque. É preciso inventar o contexto e tirar sentido do dissenso. A performance reprograma o cotidiano, desfunciona processos sedimentados de comportamento e cultura, cria outras relações para elementos conhecidos. Tudo isso gera uma atmosfera de indefinição”, diz Luanna. Mergulhe com a gente no tema!

Momentos únicos das performances de Luanna Jimenes / Arquivo pessoal

Casa de Criadores – Conte sobre seu trabalho como atriz e como migrou para a performance.
Luanna Jimenes – “Estudei Artes Cênicas na Unicamp e antes da faculdade frequentava escola de dança. A formação foi toda voltada para o teatro físico e linguagens performáticas. Fui aluna do Renato Cohen, autor do livro ‘Performance como Linguagem’ e idealizador do curso de Artes do Corpo da PUC-SP. Desde então interessava ir à contrapelo da representação e da narrativa. Apesar das interessantes experiências no teatro (como atriz atuei em espetáculos dirigidos por Cristina Mutarelli, Cacá Carvalho e João das Neves, entre outros), apareceu num dado momento a necessidade de experimentar outras maneiras de acessar o observador. Não escolhi fazer performance acreditando que seria uma linguagem mais interessante ou importante que o teatro, mas porque não tinha como não fazer. Designar uma prática artística como performance significa inventá-la, é uma palavra tão saturada quanto vazia, é preciso que o artista a defina.”

CdC – Por que, dentro de todas as artes, você escolheu a performance?
Luanna Jimenes – “Eu não escolhi fazer performance mas precisava perseguir uma prática de criação. Tive que me mexer, experimentar as ideias que apareciam e principalmente dar sentido à dança que nunca abandonei, é o fundamento de todo o trabalho. A expressão artes do corpo designa um campo imenso de procedimentos criativos. Passei pelo Centro em Movimento, em Lisboa, e pelo Instituto Brincante, em São Paulo. Nesses dois contextos pude ir fundo na criação do corpo em performance: no primeiro caso, a experiência foi próxima do espaço de convívio na cidade de Lisboa, das relações com a cidade e interpessoais, e no Brincante pelas brincadeiras da cultura popular brasileira. Tanto a cultura popular quanto as caminhadas e derivas em Lisboa estabeleciam possibilidades de embaralhamento entre arte e vida. Ou seja, a criação se relacionava diretamente com experiências cotidianas. A performance, enquanto linguagem a ser definida, me permitia experimentar em diferentes suportes e mídias, situações para o corpo: poderia documentar em vídeo uma experiência de intensidade quando em relação com um objeto (performance ‘O Asno’, 2012), ou permanecer por horas numa praça pública testando uma indumentária (‘Permanência para os Encarnados’, 2014). Apesar de estar na zona de indefinição, a performance se define a cada obra, tenho a liberdade de inventar e relacionar diferentes elementos: vídeo, objeto, arte sonora, traje e a dança.”

CdC – De todas as artes, a performance parece ser a que as pessoas menos dão o devido respeito…
Luanna Jimenes – “Sim, me parece verdade porque, como disse, a performance não se define até que o artista se arrisque. É preciso inventar o contexto e tirar sentido do dissenso. A performance reprograma o cotidiano, desfunciona processos sedimentados de comportamento e cultura, cria outras relações para elementos conhecidos. Tudo isso gera uma atmosfera de indefinição. Nos anos 60 e 70, na época da contracultura, as performances e happenings tinham um caráter provocativo, eram imantados por um espírito revolucionário e tinham o ímpeto de chocar o público. Hoje estamos em outro momento: não nos sentimos mais chocados tão facilmente e a nudez passou a ser lugar comum. Na contemporaneidade, a performance vem ganhando novos contornos, vem sendo praticada como estratégia para novas formas de sociabilidade em consonância aos problemas da atualidade. O público em geral não entende mesmo. Apesar de ser importante educar o olhar para a arte contemporânea e conceitual, a performance não pretende transmitir entendimentos mas experiências.”

CdC – Do que suas performances tratam?
Luanna Jimenes – “Apesar dos diferentes elementos, materialidades e programas de ação, o trabalho como um todo parece respirar nos limites entre o cotidiano e o que seria uma nova realidade ou situação. O prosaico me interessa, como nos relacionamos com um determinado espaço da cidade ou com objetos em ambiente controlado. Fico procurando e testando novas maneiras de lidar com a infinitas coisas com as quais convivemos.”

CdC – Fale sobre a questão efêmera da performance.
Luanna Jimenes – “A efemeridade se refere a experiências que não se podem repetir. Somos cheios de experiências únicas, porém também somos soterrados de repetições vazias. O cotidiano suscita essa contradição entre a experiência do único e da repetição exaustiva. A performance lida com essa questão diretamente.”

CdC – Quais sãos os maiores artistas da performance de todos os tempos na sua opinião?
Luanna Jimenes – “São muitos os que tiveram importância histórica e contribuíram para a linguagem da performance como a entendemos na contemporaneidade, desde o início do seculo 20: ‘Salto no vazio’ de Ives Klein e os readymades do Duchamp, os parangolés do Helio Oiticica, os objetos relacionais de Lygia Clark, a alemã Rebecca Horn com os objetos performáticos, a carioca Eleonora Fabião com sua série de ações e a cubana Tania Bruguera são referências fundamentais.”

CdC – Para quem quer se aventurar por esse mundo, quais suas dicas?
Luanna Jimenes – “É preciso um mergulho em si mesmo quando em encontro com o mundo: o que desperta curiosidade? Desejo ou inquietação? Seja lá o que for, persiga!”

CdC – Como você cria uma performance?
Luanna Jimenes – “Primeiro me coloco em movimento. Seja me propondo a uma caminhada num lugar desconhecido ou por um trajeto predeterminado, seja lidando com algum material extraído da literatura ou um acontecimento. Não tem uma regra que generalize o processo. Para criar a performance ‘Permanência para os Encarnados’, precisei andar boa parte do Alentejo em Portugal e estudar o mito de origem do Brasil segundo diferentes pensadores brasileiros para só então alcançar uma forma que desse conta dessa pergunta. Em experiência, foram 4 anos de processo. A performance ‘Jardim de Ondina’, de 2011, foi ao contrário: foram 30 dias de processo em contato com a instalação ‘Acquabox’ em parceria com outro artista. Nos dois trabalhos estou lidando com uma indumentária.

CdC – Qual o lugar que você gostaria de levar uma performance? Um lugar quase impossível.
Luanna Jimenes – “Gostaria de levar meus experimentos para diferentes cidades no mundo nos diferentes continentes, grandes capitais e pequenos vilarejos, para poder perceber como o mesmo trabalho acontece em diferentes contextos, ter com isso um reflexo de diferentes sociedades pelo prisma da performance.”

 

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