Entre festa e manifestação, a 23ª Parada Gay de São Paulo relembra a Revolta de Stonewall

Pensar em Parada Gay de São Paulo é abrir as asas para a festa. Mas nas suas 22 edições, o movimento que começou pequeno e hoje é a maior parada gay do mundo também se mantém ligado em questões mais pragmáticas e sempre toca na ferida dos preconceitos com algum tema. Neste ano a 23ª Parada Gay da cidade relembra a Rebelião de Stonewall, marco da luta e da visibilidade da comunidade LGBTI+. A APOGBLT SP se reúne com outras ONGs LGBTs, coletivos e militantes independentes para analisar, discutir e definir o tema, slogan e a justificativa das paradas. Então é festa mas também manifestação!

“50 anos de Stonewall”, com o slogan “Nossas conquistas, nosso orgulho de ser LGBT+”, vai percorrer no dia 23 de junho de 2019 a Avenida Paulista, símbolo master das conquistas da modernidade e diversidade brasileira, e depois descer a Consolação em direção à Praça da República, onde só quem manda são os deuses de cada um de nós. A concentração acontece a partir das 10h e a saída está programada para as 13h30.

Assinado por Fabricio Viana, jornalista, escritor e responsável pela assessoria de comunicação da APOGBLT SP, o manifesto “50 anos de Stonewall” lembra do episódio conhecido como Revolta de Stonewall, “um exemplo de que vitórias podem surgir a partir do sofrimento e da repressão. Na madrugada de 28 de junho de 1969, um grupo de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) frequentadoras de um bar, o Stonewall Inn, em Nova York, nos Estados Unidos, resolveram, após uma batida policial, dar um basta às agressões, preconceitos, humilhações e perseguições que sofriam. Foram três dias de resistência e enfrentamento com a polícia. Naquela época, ter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo era ilegal em todos os estados americanos”.

“A revolta tornou-se o marco de uma série de protestos e reivindicações por direitos LGBT, que se espalharam pelo país e influenciaram outros movimentos LGBT pelo mundo. Um ano depois, em 28 de junho de 1970, em Nova York, foi realizada a primeira Parada do Orgulho, em celebração à Revolta de Stonewall. Cerca de 10 mil pessoas participaram daquela marcha. No ano seguinte, Londres também faria sua primeira Parada, seguida por outras cidades pelo mundo, sucessivamente, até os dias de hoje”, segue o manifesto.

O texto lembra também da iniciativa de brasileiros para criar no Brasil o que hoje entendemos como orgulho gay. “Aqui no Brasil, parte desses 50 anos de história pode ser contada pelas páginas do ‘Lampião da Esquina’, o primeiro jornal homossexual do país, que circulou entre 1978 e 1981. A publicação marca o início do movimento brasileiro que, poucos meses depois de lançado, funda o grupo Somos – Grupo de Afirmação Homossexual. O periódico discutia, de forma bem humorada, temas relacionados à homossexualidade masculina, mas também política, feminismo, questões raciais e outras minorias, indo na contramão da esquerda de então, que enxergava a causa homossexual como algo menor, sem importância.”

“O jornal denunciava abusos cometidos pela ditadura militar contra LGBT, como o caso do jornalista Celso Curi, autor da primeira coluna gay do jornalismo brasileiro, intitulada ‘Coluna do Meio’, que circulou no jornal carioca Última Hora entre 1976 e 1978. Curi foi processado e demitido acusado de “ofender a moral e os bons costumes”. Outros destaques do Lampião foram as prisões arbitrárias de lésbicas em 1980, em São Paulo, apelidada de ‘Operação Sapatão’, comandada pelo delegado José Wilson Richetti, considerado o terror das travestis. Richetti deflagrou, em maio de 1980, a ‘Operação Limpeza’, com o propósito de prender homossexuais, travestis e prostitutas no centro da capital paulista. Mais de 1.500 pessoas foram detidas. Naquele mesmo ano, cerca de mil gays, lésbicas, travestis e prostitutas saíram da frente do Teatro Municipal de São Paulo e marcharam pelas ruas do centro contra a violência policial, sob a palavra de ordem: ‘abaixo a repressão, mais amor e mais tesão’”, segue o texto. Conheça outros pedaços desta história clicando no artigo de Fabricio Viana, no qual ele apresenta o manifesto.

Saiba mais sobre Stonewall
Tem o filme “Stonewall, Onde o Orgulho Começou”, de 2016, de Roland Emmerich, que tem no elenco Jeremy Irvine, Jonny Beauchamp e Caleb Landry Jones. As críticas não foram lá muito positivas, citando que distorceram a realidade e deram um ar muito romantizado para o tema, mas vale conferir. Foi, inclusive, boicotado por entidades LGBTs dos EUA. O livro “Na Trilha do Arco-Íris”, dos antropólogos Julio Assis Simões e Regina Facchini, vai na contramão: tem fortes embasamentos sociais e foi premiado pela Associação da Parada do Orgulho Gay de São Paulo. Virou uma referência para acadêmicos ao relembrar os primeiros estudos europeus sobre a sexualidade, atravessando o século 20 contando histórias em torno da comunidade LGBT: do nazismo à revolta de Stonewall. Ah, e confira abaixo o documentário “A Revolta de Stonewall”, que já foi exibido pelo canal GNT em 2011. E fica a dica: curta a festa, mas não se esqueça de refletir!

 

 

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