Quem (ainda) tem medo de Zuzu Angel? Uma análise da estilista que costurou moda com política

Por Brunno Almeida Maia

No próximo dia 14 de abril, completam-se 43 anos da morte de Zuzu Angel (segundo a Comissão da Verdade, pela Ditadura Militar). Durante essas quatro décadas, a vida e a obra da costureira nascida na cidade de Curvelo, nas Minas Gerais, rendeu as mais variadas homenagens, como a música “Angélica” (1977), composta por Chico Buarque de Holanda, o desfile no Sambódromo da Marquês de Sapucaí (RJ) com o samba-enredo “Quem é você Zuzu Angel? Um anjo feito mulher”, o filme de 2006 dirigido por Sérgio Rezende, a coleção “Quem matou Zuzu Angel?”, desfilada por Ronaldo Fraga na temporada Primavera-Verão de 2002 da SPFW e a 17ª “Ocupação Zuzu Angel”, em 2014, no Itaú Cultural, em São Paulo.

Se o nome de Zuzu é lembrado pela coragem na luta contra o período mais sombrio da nossa recente história, não menos importante é a sua contribuição para o fortalecimento da identidade de uma Moda brasileira. Já na época de sua estreia, entre os anos 50 e 60, numa indústria da moda fortemente masculinista e marcada por um “estrangeirismo europeu”, a criadora soube transformar o antigo saber-fazer entre as mulheres anônimas – a arte da costura – numa espécie de saber-viver, que se traduziu numa atenção às formas específicas do corpo da brasileira, na possibilidade de emancipação de sua condição por meio da costura e no diálogo com temas que compõem o imaginário coletivo do nosso país.

Angel – um de seus sobrenomes que se transformou em marca registrada – nunca teve vergonha de se assumir como costureira e brasileira! Numa época em que a Moda reivindicava, com o surgimento do prêt-à-porter, a autoridade do estilista, e propunha a “mulher do futuro” nas figuras dos franceses Paco Rabanne, André Courrèges e Pierre Cardin, suas criações provocavam a tentativa brasileira em flertar com certo modernismo, de tom depurado e sóbrio. Por um lado, o nosso ufanismo traduzido nas formas arquitetônicas de Oscar Niemeyer e Lucio Costa na construção de Brasília, na década de 60, por outro a “redescoberta” de “certos brasis”, seja na música brasileira, com Elis Regina, a Tropicália, o Cinema Novo de Glauber Rocha, o teatro de Augusto Boal, o Grupo Opinião, ou nas rendas nordestinas, nas chitas, nos temas regionais e folclóricos, com estampas de pássaros, borboletas, papagaios, e a utilização de pedras brasileiras, fragmentos de bambu, de madeira e conchas, nas roupas de Zuzu Angel, que – para desgosto de certa parcela da elite – foram parar nas vitrines da Bergdorf Goodman, principal loja de departamento de Nova York, localizada na luxuosa Quinta Avenida.

Sua capacidade visionária permitiu, ainda, que a costureira lançasse no Brasil o termo fashion designer, ao vender em sua loja em Ipanema, no Rio, não apenas as roupas de suas coleções, mas um modo de vida materializado em acessórios e objetos de design. No emblemático desfile-protesto de 1971, apresentado no consulado do Brasil em Nova York, Zuzu chamou a atenção da imprensa internacional com uma coleção de denúncia das atrocidades da Ditadura Militar, e como uma alerta pelo recente desaparecimento do filho Stuart Angel Jones, militante socialista, também assassinado pelo regime.

A coleção apresentava estampas com manchas vermelhas, pássaros engaiolados, motivos bélicos e um anjo ferido e amordaçado, que se tornou o símbolo de uma mãe à procura do corpo do filho, uma espécie de releitura moderna de Antígona, que respeitando as leis sagradas buscar dar uma sepultura digna ao irmão Polinice. Assim, não na tragédia grega, mas na história da Moda no século 20, o desfile pode ser considerado como o primeiro que conjugou intencionalmente a Moda e a política.

A Moda, como figuração do tempo histórico, possui a capacidade dialética – no sentido de pensamento da contradição – ao verbalizar as urgências de uma época, seja a serviço da classe dominante, que como grupo social institui os “modos e gostos” de toda uma sociedade, mas, também, como dispositivo de contestação, uma antítese dos valores vigentes nas relações econômicas, políticas e sociais. Neste sentido, que a obra de Zuzu pode ser considerada uma espécie de alegoria do anjo da história do filósofo alemão Walter Benjamin, exposto nas teses sobre o conceito de história (1940): com o seu rosto voltado para o passado não resolvido, o anjo da história é o único capaz de redimir o tempo histórico, e criar, apesar da incerteza, um futuro inteiramente outro. É esse gesto autêntico que a criação – em qualquer área – lança no ar quando se deixa conduzir pelo sopro da esperança em desenhar o tempo da liberdade.

* Brunno Almeida Maia é pesquisador em filosofia pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), e professor convidado de instituições como ECA – Escola de Comunicação da USP (Universidade de São Paulo), FAAP – Fundação Armando Alvares Penteado, Centro Universitário Belas Artes, e unidades Sesc SP. A convite da Oficina Cultural Oswald de Andrade, no bairro do Bom Retiro, em SP, Almeida Maia ministra, entre os 25 de abril a 09 de maio, terças e quintas-feiras, das 18h30 às 21h30, o curso gratuito “O que será do amanhã? Moda, Revolução e Política”.

A atividade visa investigar a relação existente entre a Moda, os processos revolucionários e a ação política ao longo dos séculos XVIII ao XXI, a partir da vida e da obra da costureira e estilista Zuzu Angel. O curso busca responder uma questão urgente para o contemporâneo: “se a Moda é uma das expressões da individualidade, significa que a sua realização somente está assegurada pelo pleno desenvolvimento da Democracia? Se a Moda é dialética, uma vez que está “a serviço da classe dominante”, mas também “a serviço da revolução”, como diferenciar os acontecimentos históricos como repetições do passado daqueles que carregam em si a potência de rupturas no presente?”

Com apenas 30 vagas, as inscrições podem ser feitas até o dia 20/04, sábado, neste link.

Saiba mais no Acervo Digital Zuzu Angel.

Zuzu Angel / Foto: Reprodução

 

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