Marina Peralta une reggae, rap e samba e amplifica o poder das minas na música. Leia entrevista!

O reggae nasceu na Jamaica por volta dos anos 50, ganhou força nos Estados Unidos na época da contracultura e se espalhou pelo mundo por meio de cantores e sound systems. Casa de Criadores, inclusive, já contou sobre o fenômeno dos sistemas de som no Brasil, que começou nos final dos anos 90 e já virou febre nas periferias, atraindo pra cena também muitas mulheres. Vamos contar aqui a história de Marina Peralta, que nasceu em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, e desde 2014 apresenta seu trabalho que mistura reggae com samba (o pilar de sua obra) e rap.

Os temas ligados ao empoderamento feminino ajudam a engrossar o caldo musical de Marina, que escreve letras pautada pela igualdade de gênero e usa a música para atacar todo tipo de preconceito. “Eu sempre ouvi muito samba e MPB em casa, desde criança. Quando ganhei meu primeiro violão, me desenvolvi no instrumento tentando tirar sambas e achei que eu iria pra esse caminho rsrs! Apesar de ir mudando o rumo com o tempo, continuo ouvindo muito e estou recuperando essas influências no repertório”, diz ela.

E mais: “Minhas músicas, em geral, são reflexões que acho importante espalhar, amplificar de uma forma que ainda não foi dita. Dar o meu olhar, minha contribuição. Mas no fundo é um acúmulo bem coletivo, eu só sou a porta-voz. Penso que ter um microfone na mão é ter uma ferramenta poderosa de transformação. Ser evidência de alguma forma é ser referência, o que também nos dá a chance de influenciar pessoas.”

Também adepta da antropofagia musical (leia reportagem sobre os 7 novos camaleões do rap nacional), Marina bebe da cultura hip-hop e lembra que antes do reggae viu sua perspectiva da arte mudar com a influência do rap. “O reggae me chama quando eu vejo o encontro da música de protesto que me representava com a melodia, a espiritualidade e a esperança que o reggae traz, além do ritmo, que é guiado pelas batidas do coração. Senti o poder dessa comunicação que me toca muito, mas não costumo dizer que sou cantora de reggae. Eu sou cantora”. “Eu gosto demais de trabalhar com banda, apesar de também ter outros projetos. Costumo criar com o violão, onde faço o básico da harmonia e levo pra banda normalmente já com arranjos na minha cabeça. E desenvolvemos juntos. Às vezes só escrevo e encontro parceiros pra me ajudarem com a melodia, que vou cantando e eles vão achando no instrumentos”, segue a cantora, que tem como parceiros artistas como Jerry Espíndola, Gabriel de Andrade e Douglas Almeida.

Quando perguntada sobre a cultura sound system, diz: “Não sei se eu consigo explicar. Venho de um lugar onde apesar de ter um coletivo de sound system há 10 anos, ainda temos bem pouco acesso a essa cena brasileira. Eu, que passei a circular outros estados e principalmente São Paulo, consegui entender a cena de fato quando saí da minha cidade. O que mais me surpreende e empolga atualmente é o aumento da presença das mulheres nesse espaço. Não dá pra falar de reggae sem entender minimamente a cultura sound system, as pessoas estão entendendo isso.”

“Agradece” é o nome do disco de Marina Peralta, e ela explica suas particularidades: “É um disco que sintetiza o início da minha carreira, das minhas composições. Quando gravei nós já tocávamos esses sons há um tempo e foi especial poder registrar num disco, ainda mais porque foi por meio de um financiamento coletivo. Nele ainda aparece uma diversidade de influências. Depois do novo projeto, o EP “Leve”, que lançamos há pouco, começo agora a pensar o novo álbum, que será um disco de reggae!”.

Sabe quem ela já dividiu o palco? Criolo, Emicida, Racionais MC´s. O que aprendeu com cada um deles? “Eu sempre observei muito os detalhes de produção, postura no palco, técnica. Sou fá dos três projetos citados, mas foi importante entender (óbvio) que eles são pessoas como eu e talvez a gente só esteja em fases distintas da vida. Respeito todos demais, principalmente por seus posicionamentos políticos e histórias. Me sinto conectada nessa missão de luta e arte, e honrada por já ter dividido palco com essa galera.”

Minas no reggae! “Vejo avanço, mas ainda pouco em relação a outras cenas. O machismo e o sistema todo nos coloca muito mais obstáculos pra chegar no mesmo lugar que os homens. Há uma dificuldade real de produzir, gravar, se profissionalizar, receber apoio, espaço. Por isso ressalto que os avanços são méritos nossos, de mulheres que ajudam outras mulheres a ascender e se reconhecerem enquanto capazes, artistas. Tamo ocupando, ta acontecendo”, manda a letra. Outras minas do reggae? “Vou indicar duas, mas tem muitas: Laylah Arruda, que é brasileira, e Koffee, mana jamaicana bem nova e que está borbulhando agora na cena.”

Sobre o disco Leve, explica: “É uma experiência que me trouxe bastante frio na barriga. Sem grandes ambições, realizei esse projeto com muito amor e carinho, sabendo do lugar especial que essas canções têm pra mim e entendendo o lugar especial que eu queria tocar nas pessoas. É um xodózinho que eu quero mostrar pro mundo! Uma onda sonora que eu estou pirando, inclusive o show é bem interessante porque fizemos novas versões de músicas do antigo trabalho como ‘Garoa’, ‘Ela Encanta’, todas com a linguagem do ‘Leve’. Vale a pena.”

E moda, afinal somos o site da Casa de Criadores… “Gosto muito! É uma preocupação boa que tenho sempre, sinto que me ajuda a mostrar quem sou. Tenho parceirxs de tempos em tempos que me fortalecem, mas em geral eu garimpo nos brechós. Uma amiga e figurinista daqui de Campo Grande, a Lauren Cury, sempre contribui também. Arte é muito mais que habilidade”, completa a artista.

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