Portfólio: das galerias de arte aos backstages de moda, a arte documental de Vitor Bossa

O inpróprio é um grupo de discussão e reflexão sobre arte contemporânea e processos artísticos que se reúne na Casa Contemporânea, na Vila Mariana, desde março de 2018. É formado pelos artistas Ana Francisca Martins, Antonio Pulquério, Clarice Vasconcellos, Daniel Banin, Leonor Décourt, Vinuto, Suzana Barboza, Vera Havir e Vitor Bossa e no dia 18 de maio, às 11h, eles abrem a exposição “A origem é um lugar seguro”, com curadoria de Marcelo Salles. Entre essa turma de artistas, Casa de Criadores fala sobre o trabalho de Vitor Bossa, por ele transitar entre arte e moda através da fotografia.

Moda, arte e fotografia
“A transitoriedade entre moda e arte se fez de maneira bastante repentina ao mesmo tempo que ‘natural’. Sou formado em Artes Visuais e desde sempre tive o interesse pela fotografia, no final da graduação resolvi assumir a fotografia como linguagem e, quando vi, estava fazendo assistência para alguns fotógrafos de moda. A partir disso, se desenvolveu essa linguagem híbrida entre os dois mundos, mas, além disso, prefiro dizer que não transita só entre arte-moda, transita entre o cotidiano, documental, os backstages, a fotografia de publicidade e toda essa enxurrada de imagens que estamos constantemente inseridos. Então é tentar propor algo diferente, dialogar e questionar o que já foi feito com a proposta de mostrar um olhar único e individual.”

Impressos impressionantes
“Dentro do âmbito editorial cada vez mais estão aparecendo oportunidades e é engraçado ver o trabalho circulando por aí! Já tive trabalho publicado nas revistas gringas ‘OD. Magazine’, da Bélgica, recentemente fui convidado para a ‘MAUER Mag’, de Barcelona. Por aqui já rolou ‘Vogue Brasil’, ‘FFW’, ‘SCAPE Mag’, do Adriano Damas, e fiz um shooting pra ‘L’Officiel’ que não foi publicado! Uma coisa curiosa também desse nosso mundo contemporâneo são os diversos convites por perfis de instagram voltados à fotografia analógica para publicar os trabalhos. Sobre algumas marcas e nomes que já trabalhei, entre elas estão Nike, Havaianas, Freiheit, Shopping Cidade Jardim, Pharus Design, Aldo The Band, AKQA. O que me deixa mais contente é sempre acabarem me procurando justamente pela essa proposta mais desconstruída e com mídias analógicas, não que não role digital também, mas o trabalho principal tem essa característica!’

Obra de Vitor Bossa na Casa Contemporânea / Foto: Divulgação

Entre (nas) vernissages
“Já tive trabalhos mostrados na Casa Contemporânea, onde, inclusive, participo agora desta coletiva. Além disso, participei de algumas edições da feira A Outra, de exposições no espaço FAMA, da Fundação Marcos Amaro, Lote – IA-UNESP e Ateliê Piratininga. Recentemente, no ano passado, participei de duas residências artísticas internacionais, uma em Gludsted, na Dinamarca, e outra em Dresden, na Alemanha. Lá acabei por desenvolver trabalhos mais documentais baseados no cotidiano do local. Tive o foto livro ‘When We Left to The Moon’ lançado no Festival de Fotografia de Tiradentes junto da Alter Edições, em março, e a publicação ‘JANELA’ no acervo do Instituto Moreira Salles, em SP.

Processo de criação
“Essa é uma pergunta bastante capciosa também! Diria que o processo de criação se dá em períodos de gestação e períodos de externalização. Tem épocas inteiras que passo sem produzir nada finalizado de fato, fazendo poucas imagens de âmbito autoral, mas acredito também que é essa a hora da gestação. Está ali, nascendo, brotando, se desenvolvendo, pois mesmo não concretizando nada, não deixamos de viver e experienciar. Meu trabalho vai muito nesse sentido, de estar vivo, andando e olhando. São registros sobre tudo e só isso que a vida nos é ao mesmo tempo, de maneira transparente, sem medo de expor ou esconder coisas. E, nesse sentido, tem momentos intensos de externalização criativa, onde tudo vem à tona. Às vezes são dias, semanas ou meses, onde as coisas gestadas, mesmo que inconscientemente, parecem brotar. Então são rolos e rolos de filme, textos e textos, outras vezes até músicas e vídeos nascem disso. Hoje e por enquanto, se tivesse que dizer o que motiva meu trabalho a acontecer em poucas palavras seria andar/estar vivo, acho que andar/estar vivo é estar sujeito a que as coisas aconteçam, e acho que minha maior obsessão é esse constante estar de passagem, seja pelos dias, lugares, pessoas, pela vida, e disso tento levar o que lembro, justamente com essas imagens, textos, vídeos e sons. Inclusive, até isso pode estar sujeito a estar de passagem, pois de certezas prefiro ter nenhumas.”

O lugar de origem…
“Sou nascido em Guaratinguetá, interior de São Paulo, onde vivi até os 16/17 anos. De pais muito novos, passei o maior tempo da minha infância na fazenda com os avós e sempre tive uma criação muito solta, com espaço e liberdade de fazer o que queria. Desde pequeno recordo de gostar do lado de criar, desmontar coisas, desenhar, inventar bugiganga, tocar instrumentos… Aos 16 aos fiz um intercâmbio em Londres, onde pela primeira tive de lidar com coisas do mundo e sair do ‘ninho’. Logo que voltei concluí o colegial e vim para São Paulo. Fiz cursinho pois reprovei justamente na prova de desenho, na época, para o curso de Design. Depois, no meio disso, resolvi que queria estudar Artes Visuais, Design me assustava a possibilidade de ter uma rotina! A faculdade – fiz no Instituto de Artes da UNESP em SP – foi uma experiência incrível nos primeiros anos, as descobertas, a vida meio sem compromisso e descobrindo a loucura que São Paulo é.”

está impresso na pele!
“Também comecei a trabalhar, na época como tatuador, área em que atuei por 4 anos. Em paralelo a este ofício, sempre me pegava por fotografar e filmar coisas, mas nunca assumidamente, era uma espécie de diário. Mais tarde, por cansaço da rotina e do meio da tatuagem e insistência de algumas pessoas próximas, abdiquei disso e assumi a fotografia como linguagem. Passei a desenvolver meu trabalho dentro da poética do registro, seja com imagens, textos, sons… Trata-se do viver e estar vivo e de levar consigo lembranças. E cá estamos hoje, trabalhando e vivendo a partir da foto! Acho que o primeiro contato de fato com foto foi fuçar nas gavetas do meu avô e descobrir as fotos que fazia, um universo bem louco! Algumas delas estão na mostra ‘A origem é um lugar seguro”.

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