Livro mapeia a cultura sound system no Brasil. Confira aqui entrevista com seus criadores!

Quase duas décadas depois que os sound systems surgiram no Brasil, uma dupla de pesquisadores se uniu para fazer o primeiro levantamento relacionado a essa vasta cultura. O livro “Mapa Sound System Brasil”, dos seletores (como são chamados os DJs na cultura jamaicana) Daniella Pimenta e Natan Nascimento, será lançado no dia 29 de junho na capital paulista e contempla mais de 128 sistemas de som brasileiros inspirados na Jamaica. O número de sistemas no país é muito maior, segundo Daniella, e lembrando que as radiolas do Maranhão, que surgiram nos anos 70 e que não estão na lista, terão um volume impresso em breve. Elas somam ainda mais 200 equipes. Ah, isso fora outros sistemas espalhados pelo país e mais tantos em construção. Daniella e Natan responderam perguntas a respeito do livro e sobre a cultura sound system. Amplifica!!

A ideia do livro
Daniella – “Comecei a trabalhar com o ‘Mapa Sound System Brasil’ em 2015 no meu blog, o ‘Groovin Mood’, que é dedicado ao reggae e ao sound system e está no ar desde 2008. Tudo partiu de uma curiosidade em saber a história por trás das equipes, os bastidores, as histórias únicas. E passar isso para o leitor, compartilhar esse outro lado que a gente muitas vezes não vê. Afinal, chegamos no baile, curtimos e vamos embora. Daí pensei: ‘por que não transformar essas entrevistas em um mapeamento, contabilizando os sistemas de som de reggae presentes no país’? E assim segui até que o Natan me procurasse, anos depois, com a ideia dele de transformar o Mapa mais as suas ilustrações em um livro.”

Natan – “Foi no final de 2017. Eu estava desenhando o meu sound system, o Favela Sound System (Jundiaí / SP) para um flyer de uma festa nossa, e por diversão e inspirado em ilustrações de artistas de fora do país comecei a desenhar outros sounds de SP dos meus amigos, sem muita pretensão. Ao me deparar com uma enorme quantidade de equipes em território nacional, decidi então que queria fazer a ilustração de todos os sound systems do Brasil que eu conseguisse acessar. E aí a coisa foi se desenrolando até que procurei a Dani, no início de 2018, com a proposta de realizarmos este catálogo impresso.”

Lei de incentivo
Dani – “Inscrevemos o projeto do livro no Edital do Reggae, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, e fomos contemplados, o que foi uma surpresa bastante positiva. No entanto, não teríamos espaço físico no catálogo e nem seria possível levantar em tempo hábil ao cumprimento do edital as entrevistas de todos os sistemas desenhados pelo Natan. Importante ressaltar que alguns sounds acabaram ficando para o volume 2, ou seja, o número é ainda maior do que o que vemos no livro. No entanto, a gente queria muito compartilhar histórias. Então, pessoas muito importantes e queridas foram se dispondo a contar suas visões e experiências sobre o sound system. Fomos intercalando esses conteúdos com as ilustrações e o resultado dessas narrativas está no livro. Temos depoimentos de nomes como Stranjah, Rodrigo Brandão, Walshy Fire (Major Lazer), Sound Sisters (o primeiro sound system de mulheres do país), Laylah Arruda, Leo Vidigal, Yellow P (Dubversão Sistema de Som) e também contribuições fotográficas de Miguel Salvatore, Milena Camilotti, Mel Sirks, André Velluso, William Fotos Sound System e Leandro Siure.”

A apuração
Dani – “Na época do início do Mapa eu já conhecia muita gente do sound system, tanto pelo trabalho que eu fazia no ‘Groovin Mood’ quanto pela caminhada como seletora (DJ) de reggae. Daí, fui naturalmente buscando quem era mais próximo, explicando o projeto, e coletando as entrevistas. Claro que no caminho também apareceram dificuldades: muitas equipes nunca responderam às entrevistas. Até por isso acabei dando uma grande pausa no projeto, de quase um ano e meio. Retomei um tempo depois e fui levando na marcha lenta, com as poucas respostas que chegavam, até que rolasse o contato do Natan e mudasse a perspectiva das coisas.”

Foto: Milena Camilotti

Natan – “Iniciei minha pesquisa no ‘Groovin Mood’ a partir das entrevistas da Dani. Desenhei todos os sistemas mapeados por lá e, ao fim desses, busquei fotos das caixas em páginas e perfis oficiais das equipes nas redes sociais. Quando não encontrava nenhuma informação, eu entrava em contato direto com os integrantes das mesmas.”

Os personagens
Dani – “Os personagens principais são as equipes de sistemas de som. Tudo gira em torno delas, todas as atenções, pois sem elas a cultura não seria o que é hoje e nem chegaria ao patamar que chegou no Brasil. Atualmente, nosso país é referência na cultura sound system de todo o mundo, com um número impressionante de equipes. No livro são 128, porém existem algumas outras espalhadas pelo país e mais tantas em construção – e um trabalho dedicado, sério. E é importante destacar que, além dos sounds, que são o ponto principal dessa publicação, existe todo um grande entorno de artistas, cantores, MCs, equipes de seletores, produtores, fotógrafos, dançarinos, colecionadores, um sem fim de profissionais dedicados a fortalecer essa cultura no país.”

Natan – “A inspiração é na Jamaica, que é o país propulsor dessa cultura, o sound system dentro do Brasil e as caixas de som das equipes.”

Mapeamento da história
Dani – “Bom, esse é o primeiro levantamento impresso do país sobre o assunto, derivado do primeiro mapeamento online do país. Eu creio que a importância esteja justamente aí, no pontapé inicial sobre a documentação escrita do sound system nacional, sobre iniciarmos um processo de registro literário dessa cultura que é jovem por aqui – ainda fará 20 anos. Nossa ideia é fornecer um estudo base para que outras pessoas se interessem também em buscar informações e, quem sabe, escreverem outras publicações dedicadas ao assunto. Lembrando que esse registro não contempla as radiolas maranhenses, que são mais antigas e iniciaram seus passos lá na década de 1970. Está em nossos planos realizar o mesmo trabalho de mapeamento com elas em breve, contando as histórias desse rico universo.”

Foto: Melissa Sirks

 

Natan – “Acredito que esse livro, além de registrar historicamente parte do que é feito no Brasil, também pode se tornar uma base para outras pesquisas mais segmentadas dentro dessa cultura que tanto se desenvolve em território nacional.”

O lançamento
Dani – “O lançamento do catálogo acontece no próximo dia 29 de junho, sábado, na Casa Brasilis, ali na Pompeia, pertinho do Sesc. A entrada será gratuita, e o evento terá discotecagem com seletores da cultura sound system do estado de SP e a participação da cantora Laylah, uma das primeiras mulheres a atuarem no sound brasileiro.”

Filme ou documentário à vista?
Dani – “O trabalho de documentação audiovisual do sound system, diferente do que acontece com o registro escrito, já é mais frequente no país. Recentemente, o diretor Fernando Augusto, que também é integrante do sound system Quilombo Hi-Fi, aqui da capital paulista, lançou o doc ‘Sound System – A Voz da Quebrada’, dando um panorama dos últimos dez anos dessa cultura aqui em São Paulo. Além desse filme, diversos outros trazem seus pontos de vista sobre o cenário. Nossos planos, na realidade, se voltam às publicações impressas, como o volume 2 do Mapa e uma edição com as radiolas, mas não nos fechamos a essa ideia também.”

Natan – “Vontade de ver nossa ideia se expandir todos temos. Eu e Dani já estamos com planos de concretizar os próximos volumes do livro, mas o futuro a Jah pertence e não vejo nada que impeça de um dia o mapeamento virar um documentário em vídeo.”

Foto: Milena Camilotti

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