Em coleção sobre laços, Silvério fala de feminismo e preconceito

O laço que prende é o mesmo laço que solta. Foi assim que Rafael Silvério começou explicando o conceito por trás de sua estreia na Casa de Criadores.  Esse laçarote é visto de várias formas dentro da coleção: apertado, desconstruído, frouxo. “É a desconstrução desse laço, mas também sua confirmação. A mulher não precisa gostar de laços, mas se ela quiser, tudo bem. Ao mesmo tempo que, nos meninos, isso significa que tudo bem ser feminino”, explica o estilista.

Há, sim, um link com o feminismo, já que Silvério também usou a planta Beladona como um de seus pontos de partido. No século 18, as mulheres que a usavam eram chamadas de demoníacas e bruxas e as putas a usavam para esfregar nos olhos e atrair mais homens. Na passarela, os modelos entraram com uma pulseira fluor verde, ora no pulso, ora no tornozelo, para simbolizar a intoxicação por Beladona – uma das mais tóxicas do Oriente.

Nas roupas, o estilista usa lã, material comumente associado à moda masculina, para criar vestidos rodados e femininos. O fluor também aparece em maxiblusas e bermudas, para eles e para elas. Os acessórios, feitos em parceria com a Boom, são corações 3D pendurados no pescoço, nas mãos ou no pulsos, já que, para Rafael, a mulher sempre está com o coração na mão.

Ainda na passarela, as modelos entravam com palavras como “sonsa”, “quenga” e “moderna” marcadas na pele, em uma técnica que simula a escarificação e representa o preconceito e o machismo que as mulheres sofrem todos os dias. A Silvério conseguiu, em uma coleção com boas peças comerciais, uma proeza para essa edição: contar uma história em seu primeiro desfile.

 

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A jornalista Giuliana Mesquita foi convidada para escrever sobre todos os desfiles da 45ª Casa de Criadores. Sua opinião não reflete necessariamente o pensamento do evento.

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