Em desfile emocionante, Rober Dognani fala sobre fé

O ditado diz que religião e política não se discutem. Não na Casa de Criadores. Aqui, nós sempre podemos contar com Rober Dognani para uma dose extra de emoção. Nesta temporada, o estilista resolveu prestar homenagem a Nossa Senhora de Aparecida, de quem é devoto desde criança, já que, ao ter um problema de visão curado por uma promessa feita por sua mãe, ele vai anualmente à Catedral de Aparecida agradecer.

Ano passado, ao ter um problema de saúde na família, dessa vez com seu pai, foi novamente a cidade agradecer e rezar e acabou por decidir criar essas roupas-homenagem. “Esse desfile é sobre minha fé, mas pode ser sobre a sua fé ou a de qualquer pessoa”, conta. “Eu já falei sobre boates, estilistas, alta-costura… mas, para mim, o maior luxo de todos é ter fé”.

Ao ler esse texto é fácil concluir que aqui falamos de um desfile sem sentido nos dias de hoje, quando, na verdade, os desfile de Dognani são sempre uma ode à construção, ao exagero e ao espetáculo. Uma verdadeira aula de como transformar um tema em roupas, em desfile e em narrativa.

A apresentação começa com os três pescadores negros que encontraram a imagem da santa em 1717 vestidos em roupas de linho. Em seguida, capas e vestidos ultravolumosos com estampas de peixes, seu primeiro milagre, invadem a passarela. A história conta que, na época, apesar dos tempos difíceis para a pesca, houve um aumento significativo de peixes após sua aparição, tanto que eles temeram até por um naufrágio do barco. Os looks que seguiram representavam os romeiros que viajam horas, dias e meses até a cidade de Aparecida para agradecer a santa.

Mochilas enormes, capas de chuva e tecidos reflexivos em tons esmaecidos fazem parte do visual nômade proposto pelo estilista. “Aqui é onde mostro minha moda, a coleção mais comercial, as peças que vão vender de fato”. Ao final desse bloco, o performer Loïc Koutana representa a epítome desse viajante, que carrega em suas costas crucifixos, malas, bandeiras e violões pintados de dourados, e cruza a passarela tocando um sino sinalizando sua chegada.

A imagem final, de Nossa Senhora da Aparecida, é forte e emocionante. Aqui, todos os principais personagens dessa narrativa são negros. Apesar de ser representada como branca em muitas imagens, diz-se que a padroeira do Brasil, Nossa Senhora da Aparecida, assim como a maioria do seu povo, também é negra. “Eu quis falar de minorias mas falando com a maioria”, conta Rober, emocionado, no backstage. Fechando o dia com chave de ouro, barro, tecido e fé, o estilista mostra, mais uma vez, como contar uma história através das roupas. Palmas.

 

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A jornalista Giuliana Mesquita foi convidada para escrever sobre todos os desfiles da 45ª Casa de Criadores. Sua opinião não reflete necessariamente o pensamento do evento.

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