Estileras, techno e a nova moda paulistana

“A gente gosta de se apresentar como a primeira marca de moda do Brasil que não se importa com moda”, é assim que Ricardo Boni, do Estileras, começa a explicar o conceito por trás da marca que comanda ao lado de Brendon Xavier.

A verdade é que a Estileras é diferente de quase tudo que já foi visto por aqui. Com o conceito de que o meio é tão importante quanto o fim, eles montaram o backstage na área pública da Casa de Criadores, na Praça das Artes, para que as pessoas acompanhassem seus processos. A performance começou meio dia com trinta pessoas silkando, pintando, recortando e customizando peças de brechó ao vivo. Toda a coleção foi feita do meio dia à hora do desfile, cerca de oito da noite.

“A precariedade das estruturas faz com que a gente viva assim. A gente acredita que o erro é só mais um caminho. O rasgo vira detalhe, a mancha, uma estampa”, explica. Customizar roupas de brechó tem dessas e, muitas vezes, esse é o único recurso que as pessoas têm.

No desfile, os modelos entraram todos juntos e fizeram um paredão onde só se via pelas frestas o que rolava no meio. Como se a Estileras não precisasse do aval do mundinho muitas vezes preconceituoso da moda, mas para seus amigos, as pessoas da cena e quem realmente consegue entender o que (e quanto) isso tudo significa. As roupas feitas na hora atendem bem esse novo momento da moda que se reapropria do seu discurso e de sua estética para criar uma coisa nova, fresca e que conversa muito bem com seu público.

A cena underground de São Paulo é uma das mais efervescentes do mundo, um reflexo de um cenário bem específico da cidade. As raves, as festas itinerantes, os technos espalhados pelas locações abandonadas na cidade, tudo funciona muito bem com a estética proposta pelos Estileras – muito porque eles fazem parte dela. Nessas festas, é comum se deparar com essa estética, uma espécie de Club Kid dos novos tempos. Assim como o movimento clubber que mudou a vida novaiorquina no fim dos anos 80 e começo dos 90, essa turma anda criando várias pequenas revoluções por onde passam.

A beleza grotesca, dessas que assusta os desavisados e não atende aos padrões estabelecidos pela sociedade, completa bem a cena pensada pelos meninos. Uma ótima estreia no line-up, principalmente em uma semana de moda que abraça e incentiva esses novos olhares.

 

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A jornalista Giuliana Mesquita foi convidada para escrever sobre todos os desfiles da 45ª Casa de Criadores. Sua opinião não reflete necessariamente o pensamento do evento.

 

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