Falando sobre encarceramento em massa, Pote mostra a força da moda

Se a moda choca a ponto de calar a plateia, ela está fazendo seu papel. Foi isso que aconteceu durante o desfile da POTE, a parceria entre o multiartista Novíssimo Edgar, Renan Soares, o projeto Ponto Firme de Gustavo Silvestre e a Estamparia Social. Tanto o Ponto Firme quanto a Estamparia Social trabalham com presos ou egressos, os ensinando a bordar, costurar, fazer crochê e trabalhar com serigrafia.

A junção desses três nomes dá força a um movimento de desmarginalizar e reintegrar essas pessoas na sociedade, trazendo oportunidade de trabalho tanto dentro quanto fora das prisões.

A performance fala sobre ciclos, prisão e liberdade. A passarela foi montada na escadaria da Praça das Artes, de forma a democratizar esse desfile, abrindo ao público uma questão social urgente, o encarceramento em massa da população negra. Ao fim da escada, lia-se “64% da população presa é preta. Liberdade vai cantar”. Descendo os degraus calmamente, com o andar orgulhoso, os ex-presos desfilam as peças customizadas com retalhos, pontos de crochê, desenhos criados pelo próprio Edgar. As roupas, no entanto, não são as protagonistas.

O nome Pote vem do apelido das solitárias nas prisões. Esse desfile discorre sobre a vivência dentro do encarceramento, desde os casulos que eles constroem com panos dentro das celas para receber visitas íntimas até os riscos que contam os dias para, enfim, se verem livres.

No fim, o artista e performer Léo Paixão desceu as escadas dentro dessa cabine e performou a revista policial usual da cadeia: tirou toda a roupa e agachou algumas vezes. Muitas mulheres e mães de presos denunciam a violação que sentem ao passar por esse “ritual” para visitar seus parentes encarcerados.

A importância de uma apresentação forte – ao fundo, ouvia-se ligações de presos para suas famílias –, que choca, incomoda, deixa uma pulga atrás da orelha, é enorme. Alguns desfiles não acontecem apenas para mostrar roupas e sim para alertar, fazer refletir, mudar algo. A moda pode ser fútil, elitista e boba muitas vezes, mas é em momentos como esse que ela mostra toda sua força.

 

– 

A jornalista Giuliana Mesquita foi convidada para escrever sobre todos os desfiles da 45ª Casa de Criadores. Sua opinião não reflete necessariamente o pensamento do evento.

 

Compartilhe: