Isaac Silva e o embranquecimento da cultura egípcia 

O estilista Isaac Silva sempre usa mulheres negras como ponto de partida para seus desfiles. Desta vez, escolheu algumas delas que muita gente nem sabe que eram negras. “Quando o movimento negro de Salvador descobriu que o Egito também é parte do continente africano, rolou uma surpresa e, logo, um questionamento do porque essas mulheres eram retratadas como brancas”, conta. Foi assim que surgiu a música Faraó Divindade do Egito, do Olodum.

Ao ouvir a música no Carnaval, Isaac decidiu prestar homenagem ao país, resgatando suas origens e colocando em homens e mulheres negras as roupas que representam sua cultura. “Esse embranquecimento acontece desde a época dos colonizadores, que chegaram ao Egito procurando múmias (para colecionar) e arrancaram as partes que identificavam sua identidade negra, como o nariz”, explica.

Nessa coleção, o estilista faz como uma continuação de seu último desfile, em que homenageou os Orixás, e segue a parceria com Adriana Meira, criando as imagens de Nefertite e Isis usando técnicas de colagem. Desde o robe de seda que abre o desfile e alfaiataria com bordados dourados até a maquiagem inspirada na Cleópatra, Isaac une os elementos dessa cultura a cultura afrobrasileira de forma que só ele sabe fazer. Detalhes como os búzios que enfeitavam as lapelas de jaquetas e trenchcoats fazem bem essa união. As tranças ousadas e coloridas feitas pelo Salão Styllus – que cansou de alisar os cabelos de suas clientes e se especializou em tranças – são outro elemento que une essas duas culturas no que elas têm em comum: a raça.

O desfile foi dividido em três partes: o bloco dourado, o das cores e o branco, a referência máxima de elegância do Candomblé. A moda masculina também é novidade na passarela de Silva, que colocou homens para desfilar, mas com a mesma modelagem que usa para a feminina. “Estamos falando de corpos, não tem porque escolher gêneros”. Destaque para as jaquetas e camisetas que diziam “acredite no seu axé”, lema de sua marca e de sua vida, que carrega com orgulho em tudo que faz.

Isaac Silva fecha a 45a edição da Casa de Criadores de maneira que poucas pessoas conseguem: falando de cultura, de raça, de amor, de corpo, de gênero e de preconceito de forma poética, bem humorada e com resistência, sempre.

 

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A jornalista Giuliana Mesquita foi convidada para escrever sobre todos os desfiles da 45ª Casa de Criadores. Sua opinião não reflete necessariamente o pensamento do evento.

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