Ken-gá conta a história de Afrodite, caminhoneira que transicionou aos 66 anos

A história de Afrodite, caminhoneira que transicionou aos 66 anos, foi o ponto de partida das estilistas Lívia Barros e Janaina Azevedo. da Ken-gá. Antes Heraldo Oliveira Araújo, ela viajou as estradas do Brasil trocando as roupas femininas pelas masculinas ao chegar em seus destinos. Não mais. Agora aos 69 anos, ela desfila orgulhosamente para a marca na passarela da Casa de Criadores. O sorriso no seu rosto é impagável.

A vida das boléias – aqueles assentos de bolinhas de madeira que deixa as horas sentadas mais confortável – foi traduzida em roupas com um toque caubói, com franjas, tons vibrantes e até aquelas botas/calças dos filmes western. As estilistas ainda quiseram brincar com as frases de caminhão, sempre muito machistas, e estamparam “Deusa Fiel, Deusa é Amor” em algumas peças. Em sua versão mais conceitual, a Ken-gá apresenta vestidos, tops e saias feitas com as mesmas bolinhas de madeira dos assentos de caminhões. Nesse desfile, vemos uma perceptível evolução da marca.

“Nós quisemos falar sobre as caminhoneiras e fazer um paralelo com a invisibilidade da mulher lésbica – que nós sentimentos na pele”, contam Livia e Janaína. “No caminhão, você pode ser a mulher que você quiser, você vê o futuro e encara o passado”. Dessa imagem de pôr-do-sol na estrada, foi emprestada a paleta de cores. Além dos elementos caubói, elas quiserem imprimir toda a referência cafona e dramática a que foram expostas suas vidas inteiras. Os brincos, por exemplo, foram recortados de quadrinhos religiosos que se encontram em quase todas as casas do interior.

O desfile inteiro foi embalado pela Rádio Ken-gá, com uma mistura de músicas divertida e que passam uma mensagem: de Apesar de Você, do Chico Buarque, a Lésbica Futurista, da GA31, o set fala dessa vivência lésbica com um otimismo invejável. A entrada final, com Afrodite desfilando sua nova e mais verdadeira versão, é desses momentos para ficarem guardados na história do evento.

 

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A jornalista Giuliana Mesquita foi convidada para escrever sobre todos os desfiles da 45ª Casa de Criadores. Sua opinião não reflete necessariamente o pensamento do evento.

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